4 abril 2019 - 01:15
o significado de Exegese,  segundo os Comentadores e Eruditos

Há um considerável desacordo no que se refere ao significado de exegese, e é possível contar mais de uma dezena de opiniões diferentes. Existem, todavia, duas opiniões que adquiriram aceitação geral. A primeira é a da primeira geração de eruditos que utilizava o termo exegese como sinônimo para comentário, ou “tafsir”.

De acordo com essa opinião, todos os versículos alcorânicos estão abertos ao “ta’wil”, embora de acordo com o versículo, “ninguém, senão Deus conhece sua verdadeira interpretação”, são os versículos
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implícitos cuja interpretação somente é conhecida por Deus. Por isso, muitos dos primeiros eruditos disseram que os versículos implícitos eram as letras do início das suras, uma vez que eram os únicos versículos cujo sentido não era conhecido por ninguém. Essa interpretação foi demonstrada na seção anterior como sendo correta, uma opinião que é partilhada por alguns dos sábios posteriores. Eles argumentaram que desde que há um meio de descobrir o sentido de qualquer versículo, e, sobretudo já que as letras muqatta’ah não estão, obviamente, na mesma classificação dos versículos implícitos, então a distinção entre ambos é evidente. A segunda, a opinião dos eruditos posteriores é que a exegese se refere ao significado de um versículo além de seu sentido literal, e que nem todos os versículos possuem exegese, somente os implícitos, cujo sentido último é conhecido apenas por Deus. Os versículos em questão aqui são aqueles que se referem às características humanas de ir, vir, sentar, ou de satisfação, ira e tristeza, aparentemente atribuídas a Deus; e também, aqueles versículos que aparentemente atribuem erros aos mensageiros e profetas de Deus (quando, na realidade, eram infalíveis). A opinião de que o termo exegese se refere a um sentido diverso do aparente se tornou plenamente aceito. Ademais, na divergência de opiniões entre os eruditos, exegese passou a significar “transferir” o sentido aparente de um versículo para um sentido diferente por meio de uma prova chamada “ta’wil”; esse método não é livre de evidentes incompatibilidades. Muito embora essa opinião tenha adquirido considerável aceitação, é incorreta e não pode ser aplicada aos versículos alcorânicos pelas seguintes razões:
Primeira, os versículos “Esperam eles, algo além da comprovação?” (C.7 – V.53)
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E, “Porém, desmentiram o que não lograram conhecer, mesmo quando a sua interpretação não lhes havia chegado” (C.10 V.39) indicam que todo o Alcorão possui exegese, e não apenas os versículos implícitos, como afirmou esse grupo de eruditos.
Segunda, o que se deduz dessa opinião é que há versículos alcorânicos cujo sentido verdadeiro é confuso e está oculto às pessoas, somente Deus o conhece. Entretanto, um livro que se declara como um desafio e dotado de excelência em sua brilhante linguagem dificilmente seria considerado eloqüente se não transmitisse o sentido de suas próprias palavras.
Terceira, se aceitássemos essa opinião, então a validade do Alcorão seria passível de questionamento, já que, de acordo com o versículo, “Por que não refletem sobre o Alcorão, se fosse de outra fonte que não Deus encontrariam nele muitas discrepâncias”
(C. 4 - V. 82)
Uma das provas de que o Alcorão não é palavra humana é que, a despeito de ter sido revelado em circunstâncias amplamente variadas e difíceis, não há contradição nele, nem em seu sentido literal tampouco em seu sentido interior, e qualquer contradição inicial desaparece com a reflexão. Caso se creia que um grupo de versículos implícitos esteja em desacordo com o “muhkam” ou os versículos explícitos, esse desacordo pode ser resolvido explicando-se que o que é tencionado transmitir não é o sentido literal, mas outro sentido conhecido somente
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por Deus. Contudo, essa explicação nunca provará que o Alcorão
“não seja palavra humana”. Se pela exegese mudamos alguma contradição nos versículos explícitos ou “muhkam”, para outro sentido além do literal, é evidente que podemos também fazer isso com o texto escrito ou falado de origem humana. Quarta, não há prova de que exegese indique um sentido diferente do literal e que, nos versículos alcorânicos que mencionam o termo exegese, o sentido literal não seja o propósito expresso. Em três ocasiões na história de José, a interpretação de seu sonho é chamada de “ta’wil”. É evidente que a interpretação de um sonho não é fundamentalmente diferente da aparência do sonho;
é a interpretação do que é retratado numa forma particular no sonho. Assim, José viu seu pai, sua mãe e seus irmãos no chão na forma do sol, da lua e das estrelas. De modo semelhante, o Faraó viu os sete anos de seca na forma de sete vacas magras que comiam sete vacas gordas e também, as sete espigas verdes e as sete espigas secas.
E da mesma maneira, os sonhos dos dois companheiros de José na prisão; um viu a si mesmo servindo vinho ao Faraó (na forma de estar espremendo uvas), enquanto o segundo viu a si mesmo crucificado (na forma de se ver levando uma cesta de pães na cabeça, que era picada por pássaros). O sonho do Faraó é relatado na mesma sura,
no versículo 43, e sua interpretação é anunciada por José,
nos versículos 47 a 49 quando ele diz,
“Semeareis durante sete anos, segundo o costume, e do que colherdes deixai ficar tudo em suas espigas, exceto o pouco que haveis de consumir, Então virão, depois disso, sete (anos) estéreis, que consumirão o que tiverdes colhido para isso, menos o pouco
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que tiverdes poupado. Depois disso virá um ano, no qual as pessoas serão favorecidas com chuvas, em que espremerão (os frutos)”
(C. 12 - V. 47 a 49)
Os sonhos dos companheiros de José na prisão são citados no versículo 36 da mesma sura. Um dos jovens diz a José, “Sonhei que carregava uma cesta de pães sobre minha cabeça, que era picada por pássaros”.
A interpretação do sonho é relatada por José no versículo 41,
“Ó meus companheiros de prisão, um de vós servirá vinho a seu rei e o outro será crucificado, e os pássaros picar-lhe-ão a cabeça...”.
Numa forma semelhante, Deus relata a história de Moisés e de Khidr2 no capítulo 18 (al Kahf) versículos 71 a 82. Khidr faz um buraco no casco dos barcos; em seguida, assassina um jovem e, finalmente, restaura um muro arruinado. Após cada evento, Moisés protestava e Khidr explicava o sentido e a realidade de cada ato executado seguindo ordens de Deus, a isso ele chamou de “ta’wil”. Portanto, fica evidente que a realidade do evento e da imagem do sonho que retratava o evento era basicamente a mesma: o “ta’wil” ou interpretação, não possuindo um sentido diferente do aparente.
2. A quem o Alcorão descreve como um servo justo de Deus, possuidor de uma grande sabedoria e conhecimento místico.
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Deus também diz, mencionando os pesos e medidas, “E quando instituirdes a medida fazei-o corretamente, pesai na balança justa, porque isto é mais vantajoso e de melhor conseqüência”. (Isto é, mais conveniente na determinação final do Dia do Acerto de Contas) (C.17 – V.35)
É óbvio que o termo ta’wil empregado aqui a respeito da medida e do peso se refere ao trato justo nas práticas comerciais. Assim, o ta’wil empregado desse modo não é diferente do sentido literal das palavras “medida” e “peso”, somente aprofunda e expande o significado mundano para incluir a dimensão espiritual. Essa dimensão espiritual possui significado para o crente que tem em mente o ajuste de contas no dia final em conjunto com o seu ajuste de contas cotidiano nos assuntos comerciais.
Em outro versículo Deus novamente emprega o termo ta’wil, “Se disputardes sobre qualquer questão, recorrei a Deus e Seu Mensageiro... porque isso vos será preferível e de melhor resultado”. (C.4 – V.59)
Está evidente que o sentido de ta’wil e a referência da disputa a Deus e a Seu Mensageiro é para estabelecer a unidade na sociedade e para demonstrar como cada ação ou evento numa comunidade possui um significado espiritual. Assim, o ta’wil se refere a uma realidade ordinária tangível e não está em oposição ao texto nos versículos que se referem à disputa.
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Ao todo, existem seis ocasiões no Alcorão em que o termo ta’wil é empregado, porém, em nenhuma ocasião possui um sentido diferente ao do texto literal. Podemos dizer, que o termo ta’wil é utilizado para ampliar a idéia expressa até incluir um sentido adicional que,
(como ficará claro na próxima seção) ainda está de acordo com a palavra “ta’wil” que ocorre no versículo. Portanto, considerando esses exemplos, não há razão alguma para que entendamos o termo ta’wil no versículo sobre o sentido explícito (muhkam), implícito ou “mutashabih” com o propósito de indicar um sentido basicamente diverso do aparente.

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